Pular para o conteúdo principal

"Brasil! Mostra tua cara..."

-











C
omo a fumaça que destrói o vento puro,
como a surdina torta fazendo barulho
como a invasão da água intrusa no circuito
como o atrito do lipídio entre meus músculos

Como alguns cacos derrubados no asfalto
como a catraca emperrada do registro
como a saliva que escorre em meio ao grito
como a justiça mascarada do planalto

Como o pincel enferrujado em fina tela
como o vazio na casa do vizinho marrento
como a frieza encorporando um sentimento
como a milícia e os tratores da favela

Como a linguagem distorcida pelo tempo
como a gramática levada em gozação
como as figuras de linguagem em ascenção
como a passagem na avenida em passos lentos

Como o malandro que levou minha carteira
e viu a morte alguns segundos depois
como a mentira em meio ao amor daqueles dois
como a tristeza do final de uma carreira

Como a paixão que dura apenas uma noite
e de manhã pede o valor do seu trabalho
como o coringa no final do meu baralho
como os espinhos corrosivos no açoite

Como o tratado em desacordo com a verdade
como a maldade aproveitando seu momento
como a tesoura cortando meu documento
me condenando a uma vida sem identidade

Como o bichinho que amedronta minha filha
como o terror da solidão num quarto escuro
como um barulho inesperado no murmúrio
como a chacina nas arestas da guerrilha

Como enxergar o sangue e ver a própria morte
como a tolice de se achar bem mais maturo
como a dor forte depois de um murro no muro
mostrando o descontentamento com a sorte

Como a incerteza incomodando os doentes
como os remédios trafegando sem efeito
como o cigarro demarcando os próprios dedos
se faz o orgulho dessa vã formosa gente.

"Brasil! Mostra tua cara..."

TUA VERDADEIRA CARA.

Comentários

  1. Amor esse texto... é ... pocHA! (sem palavras...)
    Criticando o Brasil e as coisas más dele.
    Muito bem feito, uma visão clara, e necessária.
    Ainda com um toque de Cazuza.

    PARABÉNS.

    ResponderExcluir
  2. Devo confessar que é um texto beem carregado, não deixando, é claro, de ser incrível (como tudo o que você faz ;P).
    Breve passo aqui novamente para lê-lo com a devida atenção que ele merece, afinal são 0h e estou exausta.
    BeijÃO no coraçÃO!

    ResponderExcluir
  3. Esse é um de seus melhores textos. Falando de conteúdo, ele é tão lindo quanto seus outros. mas ele se destaca bastante pela harmonia que você conseguiu estabelecer entre as palavras e em quais tempos você usa palavras de força e palavras sutis. Nesse texto, você fez jus ao nome do blog.

    Muito Bom.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O velho e a música

Era 4:30 da madrugada... Quando um velho músico, já cansado, pega seu violão e com os dedos meio trêmulos faz soar seu último acorde... Um DÓ . Ele tinha dó de si, e vivia esperando o momento de sua hora... A hora em que a vida o levaria pra outro mundo... A hora que tudo se acabaria, e começaria. Ele andava pra frente, olhava pra frente, vivia pra frente... não havia em seu câmbio a marcha RÉ . Seu carro velho chorava, como se o coração sentisse que o dono estava a partir... A ré já falhava e o freio nem respondia mais, mas os corações dos dois estavam de certa forma ligados... O motor partiu e em certo momento o aglomerado de sons que saía da correia do motor fez soar um MI . A senhora esposa, coitada... Cansada da vida, cuidava da casa e sentiu a falta do seu velho. Foi ao terraço onde ele estava sentado na cadeira de balanço, debruçado sobre o violão, de olhos bem fechados. Nem precisou verificar pulso ou respiração, entendia perfeitamente o acontecido. De sua delicada mão, a colh...

Como é que se vive?

Eu nasci e disseram que eu tinha que me vestir não chorar e não adoecer Cresci e disseram que eu tinha que estudar ser educado, inteligente, hétero, magro, rico. Disseram que eu tinha que amar, casar, trabalhar Viver como descobriram que é a forma que se vive E se eu não seguisse a jornada premeditada? Se me ensinassem o básico para que tivesse consciência E conhecimento para encarar o mundo Como de fato fosse pra ser encarado? Então saísse nu pelos bosques E plantações de frutas, verduras e trigo Aprendesse a plantar comida, vivesse embaixo de umas árvores folhas confortáveis de dormir, perto de um rio tão limpo que pudesse me banhar e uma fonte onde pudesse beber da pedra Acho que a natureza tem tudo que preciso pra viver E o paraíso parece tanto o Jardim do Éden pra mim. E ainda assim as pessoas se matam por uma vida que nem sabem ao certo se é a forma certa de viver.