Pular para o conteúdo principal

Cega


Chorei.
Ouvi.
Chorei.


Qual o objetivo daquilo tudo? Responda-me Universo.
Aqueles olhos azuis, levemente fechados, sobrancelhas levemente levantadas... e nada.

Avistei.

Era ela. Sentada. Não via nada. Seguia cega e seu cão uivava.

Viva!
O sorriso aquele parque iluminava. Sem ver nada.

Ela falava,
O cão obedecia de forma tal que fazia mais do que ela esperava.

Seus olhos brilhavam, e ela nada via. Brilho cego e desconhecido.
Lindo brilho.
Linda.
Era ela. Bela.

Ela sentia. Ela sentia sua cegueira. Ela sentia a diferença.
Cegueira mesmo de nascença.

Seu sorriso iluminava. Seus olhos levemente fechados não focavam.
Mas chorava.
Chorava por não ver.
Não via.
Não via seu choro.
Não vendo, chorava.

Chorei.
Ouvi de longe as lágrimas rompendo o ar e colidindo ao chão.
Chorei.



......................................... Poesia Abstrata. by Otavio Alcantara.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O velho e a música

Era 4:30 da madrugada... Quando um velho músico, já cansado, pega seu violão e com os dedos meio trêmulos faz soar seu último acorde... Um DÓ . Ele tinha dó de si, e vivia esperando o momento de sua hora... A hora em que a vida o levaria pra outro mundo... A hora que tudo se acabaria, e começaria. Ele andava pra frente, olhava pra frente, vivia pra frente... não havia em seu câmbio a marcha RÉ . Seu carro velho chorava, como se o coração sentisse que o dono estava a partir... A ré já falhava e o freio nem respondia mais, mas os corações dos dois estavam de certa forma ligados... O motor partiu e em certo momento o aglomerado de sons que saía da correia do motor fez soar um MI . A senhora esposa, coitada... Cansada da vida, cuidava da casa e sentiu a falta do seu velho. Foi ao terraço onde ele estava sentado na cadeira de balanço, debruçado sobre o violão, de olhos bem fechados. Nem precisou verificar pulso ou respiração, entendia perfeitamente o acontecido. De sua delicada mão, a colh...

"Brasil! Mostra tua cara..."

- C omo a fumaça que destrói o vento puro, como a surdina torta fazendo barulho como a invasão da água intrusa no circuito como o atrito do lipídio entre meus músculos C omo alguns cacos derrubados no asfalto como a catraca emperrada do registro como a saliva que escorre em meio ao grito como a justiça mascarada do planalto C omo o pincel enferrujado em fina tela como o vazio na casa do vizinho marrento como a frieza encorporando um sentimento como a milícia e os tratores da favela C omo a linguagem distorcida pelo tempo como a gramática levada em gozação como as figuras de linguagem em ascenção como a passagem na avenida em passos lentos C omo o malandro que levou minha carteira e viu a morte alguns segundos depois como a mentira em meio ao amor daqueles dois como a tristeza do final de uma carreira C omo a paixão que dura apenas uma noite e de manhã pede o valor do seu trabalho como o coringa no final do meu baralho como os espinhos corrosivos no açoite C omo o tratado em desacordo c...

Como é que se vive?

Eu nasci e disseram que eu tinha que me vestir não chorar e não adoecer Cresci e disseram que eu tinha que estudar ser educado, inteligente, hétero, magro, rico. Disseram que eu tinha que amar, casar, trabalhar Viver como descobriram que é a forma que se vive E se eu não seguisse a jornada premeditada? Se me ensinassem o básico para que tivesse consciência E conhecimento para encarar o mundo Como de fato fosse pra ser encarado? Então saísse nu pelos bosques E plantações de frutas, verduras e trigo Aprendesse a plantar comida, vivesse embaixo de umas árvores folhas confortáveis de dormir, perto de um rio tão limpo que pudesse me banhar e uma fonte onde pudesse beber da pedra Acho que a natureza tem tudo que preciso pra viver E o paraíso parece tanto o Jardim do Éden pra mim. E ainda assim as pessoas se matam por uma vida que nem sabem ao certo se é a forma certa de viver.